22/05/11

22 de Maio

Hoje é um dia bonito. Unem-se as festas, unem-se os antigos e os recentes, unem-se os amores. E como nós gostamos destes convívios, quase conferências de casino onde se discutem ideias, onde se ri da desgraça e onde, acima de tudo, se deixa o tempo passar, sem lhe dar confiança.


Foi aqui que cresci, num berço banhado a cultura, respeito mútuo e sensibilidade. E eis que aqui estou, e eis que aqui estamos mais um ano para saborear a amizade na companhia de uma fatia de pão com queijo da serra e presunto. As pessoas são as mesmas, mais ou menos rugas, 5 kg a mais, 5 kg a menos, ninguém muda.


Hoje é mais um dia bonito, em que te escrevo devaneios de um jovem ausente. As cartas sucedem-se, fica o gesto no coração, as palavras no ouvido e o desejo de tréguas numa lágrima de afecto. Que orgulho tenho daquilo que me tornou mais homem, quando devia ser mais miúdo, daquilo que me fez parar na cama e viajar entre pensamentos, em vez de ligar a televisão à espera do sinal do sono.


Hoje é um dia bonito, que ninguém duvide. E hoje, queria-te dizer, que ainda aqui estou de sorriso na boca e olhos no ecrã, que ainda preciso de escrever, que ainda tremo quando te sinto mal, que ainda sou eu, o miúdo que admiravas e de quem te orgulhavas. Quero acreditar que nos vamos entender, que um dia vais virar a página para leres o que está escrito nas costas, que um dia vais assimilar com relativa facilidade a emergência de um menino que já deixou de o ser. Sei que um dia o orgulho vai voltar, como um pena branca que poisa numa secretária do início do século e se deixa ficar até alguém notar.




Hoje é o teu dia Mãe, e como ele é bonito ao final da tarde.



Parabéns Mãe,


Do teu eterno filho Miguel.



22/05/2011


Miguel Branco

16/04/11

Bosque

A luz era ténue. Um sopro e adeus. A cera que caía desenhava a linha que te separa de ti. A luz era frágil. Dançando aos empurrões do fogo do vento. Das respirações, em que adivinhava os teus pensamentos. Não havia televisão. Ouviram-se as cigarras ao longe e os grilos ao perto. Ao virar da última árvore do bosque. Última ao teu alcance. Existe tanta coisa lá fora. E o medo. Tanto, em flocos suspensos. Nunca te vi. Não sei que reflexo reproduzem os teus olhos quando focam a chama, em segredo. Espreito pela janela a tua eterna casa de madeira. Porque te escondes? Que delírios mentais contas à luz que te ilumina a alma…sem cor, sem ti, sem coragem de sorrir. A tua poltrona vive asfixiada, sem saber como te pedir oxigénio. Não saíste. Nem vais sair. Não tens medo do bosque. Tens medo de ti.



Miguel Branco

10/04/11

Eu não me quero enganar

Não penses que somos iguais. Eu não fumo tabaco de mentol, nem slims, nem canto bem. Não sabes se visto L ou XL, se calço o 43 ou o 45, se começo pelas jeans ou pela t-shirt. Não sabes que despertador me acorda em dias de asfixia mental, que iogurte desejo quando os olhos não são mais que detectores de movimento. Não sabes qual é a primeira música do meu ipod, nem sabes o que procuro nas noites de insónia. E daí talvez saibas. E então? Podes pensar que somos algo parecidos. Enganas-te. Eu não. Nem quero. Talvez nos encontremos na forma de observar, cada um no seu canto...a rir de toda a gente, a ver pessoas a disfarçar sem sucesso. Escrevo. Faço um avião de papel e envio-te. Só acenas, em jeito de confirmação. Isso sim. Pertencemos a um núcleo restrito de pessoas, que lê, enquanto projecta, enquanto ganha certezas. Em quanto...tempo sabemos o DNA do batom que deixaram no copo. Ainda bem que sabes. Mas não sabes tudo. Não sabes que a história muda, que se vai escrevendo sobre outros parâmetros, com outros protagonistas, com diferentes interpretações. O vinho azedou. Foste tu que o abriste e te esqueceste de fechar. A cerveja está bem viva. Pode até ser mentira. Podes até saber o meu número de calçado, e que gosto de roupa larga. Mas não sabes o que escrevo a carvão no meu mural interno. Isso não sabes.



Miguel Branco

26/03/11

Eles

Ela dizia que sim. Ele dizia que não. Ele pensava que sim. Ela pensava que não. E eu a ver. Nada se ouvia. Sem frequência radiofónica, sem altifalantes secretos, sem um pedaço de futuro para hoje se projectar. O amor, que nenhum dos dois ousaria admitir, em recuos estratégicos, em desvios de olhar, em abraços eloquentes.

Amarram-se a uma árvore com cordas de desejos e algemas de beijos, a inquisição à porta e a emigração à vista. Alguém se ergueu, com medo de se tornar raiz de árvore tão bela, de sustentar os troncos, as folhas e os frutos e tudo (na hora do tornado), de beber da água mais suja e mais saborosa e mais...

Façam-se juras de fugacidade, cuspidas por desilusões de eternidade, e um olhar recatado, distraído, húmido, mais perto de mim, de onde os contemplo. É feio, eu sei. Espreitar a vida de outrém que desespera por um sorriso, nem que seja amargo, nem que quase não se note, nem que ela o desminta. Perdido no dia, na noite, no amanhecer da sua revolta interina, no anoitecer da sua desejada placidez.

Retiro-me, aos poucos, para não ver como termina. O meu olhar está exausto. De tanta emoção, de tanta desordem amorosa, de tantos laços sumidos em expirações trémulas. Que história ofegante. Não resisti. Voltei a atrás e olhei. Não vi mais que os seus corpos desenhados na relva. Eu nado. Tu nadas. Ele nada. Nós nadamos. Vós nadais. Eles nada.

Miguel Branco

21/03/11

Casa

O sol de frente para a lua. De um lado o dia, do outro a noite. E eu no meio...de nada. Reflectem-se mutuamente no leito do rio que eu não alcanço, nem avisto. Tão perto de mim. Estou tão longe de vós, aqui onde vos escrevo esta carta. Na dificuldade de me despedir...para ficar. Hoje que fui, hoje que sou, hoje que vim para longe de mim. Um adeus sem cor, sem fuga. Silencioso.

As paredes estão iguais, os quadros da Bahia e o touro com olhos humanos. O mesmo mármore gelado e a vossa enorme biblioteca, no topo. O cheiro mudou. Capto desgosto nas partículas que o sol ilumina e a lua esconde. A porta está mais velha, mais difícil de abrir e de fechar. Declaro-me culpado.

Que saudades do vosso sorriso, que sempre foi a minha jangada quando nadava entre algas mortíferas e maremotos emocionais. Afogado na minha cegueira deixei-vos ver, matei metade de vós.

Um dia escrevi-te, lua, com medo que não voltes a ser cheia. Sem perdão. Sem regresso ao teu abraço gigante, onde me sentia na proa do navio, desabafando com o vento. Tenho a cara enterrada na areia, bem fundo, e não há uma gota de água. Nem um búzio a fazer de jukebox ou um caranguejo a fugir da espuma. Evaporou. Tudo. Hoje despeço-me de vós e da casa que também foi minha. Desculpem.

Miguel Branco

05/03/11

Não se paga nada

Já estava na hora. A plataforma bem composta. Temperatura razoável. Humidade em decrescendo da noite. Vento de Nordeste. Metro e meio na Costa e em Peniche. Oito horas e dezanove minutos. Menos uma nos Açores. E o sol descansava lá em cima, no tecto da estação do Pragal. Também merece, que isto de iluminar múltiplos lugares do mundo constantemente também cansa. O fumo ia divagando, a música em cada ouvido, jornais gratuitos em abundância. A pressa de partir e a pressa de chegar, entre posicionamentos perigosos e empurrões cansativos. Quem adivinha onde vai parar a última porta? Eu acerto sempre, só aquela senhora com cinquenta sobretudos e setenta cachecóis é que me dá luta. Uma vez, outra vez outro. 45-42, ganha ela. Mas o campeonato ainda não terminou.

E aí vem ele, o comboio suburbano Fertagus oriundo de Coina e com destino a Roma-Areeiro vai entrar na linha número quatro. Não é bem assim, se fosse tinha de colocar aspas. E teria de fazer aquela voz formal que tanto me irrita. É agora é agora...já está. Que saborosos cinco segundos. Em que o comboio passa a alta velocidade, eu fecho os olhos, espero que o vento me lave a cara e ganho um sorriso por mais uns minutos. E vejam bem, é grátis, não se paga nada. Pelo sorriso. Pela brisa? Aqueles vinte e cinco cêntimos a mais que sobressaem dos vinte e cinco euros não são do IVA.

Os cabelos voam, os cigarros apagam-se e a portas abrem-se. Pode seguir viagem que o sol já está à minha espera na ponta para desejar um bom dia.

Cinco segundos, vinte e cinco cêntimos, mas pagos com gosto. Até logo.

PS: Nem se atrevam a dizer que a brisa do metro é melhor.

Miguel Branco

26/02/11

Nómada

Hoje não tenho tempo. E amanhã também não vou ter. E depois? Logo se vê. Não sei viver assim. Ao som de uma balada anticlerical que tarda em chegar, que se compromete com o vento, mas não o convence a ficar. Nem a mim. E logo eu, que sou mais nómada que um pedaço de papel amachucado onde me contaste o teu maior segredo. E os segredos viajam por massas de ar quente africanas e leves brisas oceânicas. E toda a gente os lê, mas ninguém os descodifica.

Não sei que ar é que toco, que brisa é que me faz fechar os olhos e consumir sonhos irrealizáveis. E aqui prossigo a minha constante interrogação sobre o tempo. Até hoje nada. Até ontem muito menos. Alguém o viu? Nem que seja por meio instante de segundo, pelo fumo que expira pela boca numa paragem de autocarro, pelo reflexo dos seus olhos em contraste com quase tudo, pelo seu caricato andar, que um dia parece sério, outro dia parece irónico. Porquê? Porque ninguém voa ao sabor do tempo, ninguém deixa de dançar por não ter tempo. E ele ri-se. De mim, de nós, de vocês. Por saber que não destrói ninguém, não exige maior ou menor velocidade na altura da decisão. O tempo dá sempre outra oportunidade. Enquanto caminha, também espera. E cada pessoa marca o seu ritmo, a sua forma de estar. Por mais rápido que se esteja, não se pense que ele não está atento, que ele não conta cada passo. O tempo só parte quando ninguém o quer agarrar. Eu bem quero, mas nunca tenho tempo para me lembrar. Amanhã vou ter tempo.

Miguel Branco