26/12/10

Avalanche

Que ruído estranho. Logo aqui, onde neva o ano todo e o som permanente não é mais que o voo de aclamação das aves de rapina. Ainda ouvimos, ainda cheiramos, ainda sentimos, ainda sobrevivemos. Construímos o boneco de neve e mandamo-lo abaixo. A seguir colocamos uma cenoura a fazer de nariz. Quando refazemos o boneco usamos a mesma neve, já nem parece fria nas mãos enrugadas. Não usamos luvas nem pranchas e a tenda chega perfeitamente para resistir ao frio. Mas hoje este fragor que oiço lá ao longe ainda não parou. Vem aí mais uma avalanche e ninguém é capaz de avisar. Onde é que tão as aves agora? Agora é correr. Parar. Respirar. Voltar a correr. Aos poucos sem me deixar alcançar por este demónio dos glaciares e montanhas. Por fim sento-me, olho para trás e ela ainda lá está. E eu ainda aqui estou.

Miguel Branco

15/12/10

Perdi-te(me)

Perdi-te. Naquele dia em que algo tomou conta de mim. Não me conheci, não me ouvi, nem vi o tremer dos meus braços, os livros pelo ar, o sangue a subir-me à face. Desde esse dia nada escrevi. Desculpas? Justificações? De que servem? Quando o que foi dito foi dito e a borracha, com que agora apago as palavras censuradas pela minha inquisidora consciência, não elimina palavras naquele tom. Nem tu, que sempre me deixas depositar em ti tudo o que guardo, me reconheceste na pior tarde da minha vida. Até de ti, por mim, tive vergonha. Pior e a última tarde que vivi. O relógio não voltou a andar, oiço tudo, letra a letra, em vários idiomas e alfabetos. Os ponteiros estão no mesmo segundo em que a última lágrima caiu. Pela primeira vez (para mim) o tempo parou, esse ingrato que nunca esperou por ninguém. Nem para a frente nem para trás, se ao menos o cuco ainda cantasse, se ao menos eu ainda fosse aquele que era antes de falar. Mas não sou, nem para quem o fiz, nem para mim. Não o podia ter feito. Mas fiz. Não nos podia ter desligado, mas desliguei. Com curto-circuito, no teu gigante coração que tão subitamente mirrou. O teu olhar mudou naquele dia. Perdi-te. Perdi-me. Fiquei. Não acredito.

Miguel Branco

22/11/10

Cliché

Dá-me lume. Cliché. Acendo o cigarro e respiro fundo. Cliché. A olhar para o mar questionamos o nosso “nós”. Cliché. O nó aumenta, os olhos humedecem, as palavras fazem dor de garganta. Cliché. As lágrimas caem e as cabeças baixam. Cliché. O desgaste e o abraço. Cliché. Seguimos para o café, outro cigarro. Cliché. O fumo custa a travar, que futuro? Cliché. Não quero desistir já. Cliché. As mãos tremem, o coração entra em erupção. Cliché. Tanta lava em forma sentimental. Cliché. Não vás. Cliché. Passeamos de mão dada. Cliché. No último sopro, o último beijo. Cliché. Não me deixes. Cliché. É o melhor. Cliché. Viraste costas e partiste. Cliché. Eu fiquei parado a ver-te ir e a aproveitar a minha última imagem – tua. Cliché. Qual cliché? Cala-te. Cliché. Cliché. Amo-te. Cliché.

Miguel Branco

27/10/10

Campos de Trigo

Pára. Já não consigo aguentar o teu peso. Pára de me empurrar para onde eu não sei ir, para onde o cheiro é diferente e silêncio não deixa ninguém falar. Que avassalador, o modo como me sinto observado no redor de ninguém. Nem um ancião aos tropeções na sua filosófica barba, nem um nómada que se perdeu a caminho de casa, nem um gnu que seja a fugir de um leopardo. Pior, nem um chinês.

E foste tu que me fizeste cair para estes campos de trigo intermináveis. Que castigo é este? Neste sítio, o silêncio é um ditador. Persegue-me até ao último trigo, a qual eu nunca cheguei. Não me deixa gritar, nem suspirar, ele ocupa todas as partículas invisíveis e ondas magnéticas com códigos estranhos, que me permitiriam exprimir-me, oralmente.

Puxa-me para fora daqui, eu não sei viver deste modo. Eu cresci com o silêncio, aquele que é bonito, que diz tanta coisa, sem nada dizer. Não quero, nem posso conviver com este. É inquisidor, multiplica-se em cada trigo, e daí propaga o seu eco milhões de vezes. É um ruído total e incompreensível.

Não vejo mais nada. Só amarelo meio torrado, que eu nunca odiei tanto. Nem sequer uma colina ou um vale com uma nascente?

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Já não estou lá. Alguém me trouxe de volta, e não foi o silêncio que eu sempre amei, nem o amarelo que eu desde pequeno idolatro. Foi alguém que me deu um local hollywoodesco, com que eu sempre sonhei. E me deixou estar, a observar, sem conseguir dormir, sem conseguir falar.

Se um dia assim o quiser, torno qualquer bela num monstro.

Miguel Branco

12/10/10

Carta aberta

Para ti e por ti, uma carta aberta. Sem dúvidas que se tornam aves, nem recuos que soem a despedidas emocionais por uma eterna janela de comboio. Não quero clichés que já cheiram mal, de tão velhos e gastos que estão. Precisamos de encher a nossa caixa secreta, e eis que cumprimos a tradição: uma carta no dia em que beijas a maioridade. Podia tornar esta carta numa coisa chata, em que apelava pelas tuas responsabilidades (como se fosse preciso), em que incorporava uma personagem de cinquenta anos e falava dos voos e das quedas com que a vida nos congratula.

Mas isso não seria eu. Eu gosto de te florear e de te mimar com palavras perfumadas. As vezes sinto-me ridículo, como se te tivesse conhecido ontem e tudo isto fosse um flirt a tomar proporções gigantescas e assustadoras. E mais, como se a nossa história fosse como a comum das mortais, em que dois olhares se cruzem, se aproximam e quase se tocam, para depois se afastarem e voltarem mais tarde a unir-se de facto. Ou pior, como se nos tivéssemos beijado pela primeira vez numa sala de cinema (não é que eu não tenha tentado). Acho que ninguém teve um primeiro beijo num sítio tão cómico como nós (desculpem caros seguidores de comtexto depois conto-vos, um dia mais tarde).

Com dezoito ou com quarenta e cinco, serás sempre tu. E eu serei sempre eu, e estarei sempre no mesmo local, se houver forças para isso: ao teu lado. Parabéns pequenina.

Teu, hoje e sempre,

Miguel Branco

05/10/10

Pesadelo

Calma. Ele está a bater muito depressa.

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Onde vais tu deambulando por esses planaltos já visitados e por essas pedreiras de cores asfixiantes? O que procuras nessa natureza que esmaga pensamentos e corrói criatividade? Porque queres fazer uma tempestade com as próprias mãos e erguer um tornado que absorva os dois hemisférios?

E não queres ser culpado. Não queres que ninguém fique para te apontar o dedo. Sobram telhas em trezentos pedaços, sinais de trânsito amachucados, carros sem direcção.

Querias o ostracismo global e o que seria de ti? Serias o único Adão, no teu personalizado jardim de éden, onde as cinzas reinavam e o cheiro dos cadáveres te ia queimando o desejo de viver. Eras já parte da vegetação, o teu sangue ia arrefecendo e eras nativo daquele local. Que é feito da tua linguagem e forma de comunicação humana?

Perdeste os poderes. E os olhos abriram lentamente.

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Calma. Já expeli a minha angústia. Ele voltou ao ritmo normal.

Miguel Branco

16/09/10

Aproximar

Que sensação esquisita. Não sei bem o que sinto, e eu acho que sei sempre o que sinto, mesmo que não o saiba. Procura algo distinto num destes cantos da sala, mas se não vejo abajures tortos e infelizes, vejo peças artesanais que outrora me davam alento. E ver não me chega, nunca chegou. Preciso de estabelecer uma conexão, por mais idiota e ridícula que seja. E não, não é ver para além do que os olhos vêem, porque de facto são eles que o fazem, seja de uma forma mais superficial ou mais profunda. Viajando nas partículas com nomes químicos e microscópicos cujas suas fórmulas fazem doer a cabeça, vou-me aproximando. Muito lentamente. É assim que vou colocando etiquetas, de olhos vendados, são nomes próprios, próprios de minha autoria e não de um grupo de substantivos próprios. Com letra grande, como dizem as crianças. Todos vemos com dois olhos, todos sabemos ser observadores, todos temos uma maneira diferente de nos aproximar. Sim, aproximar. Porém, sem conseguir entender.

Eu não disse que achava que sabia sempre aquilo que sentia?

Miguel Branco