Miguel Branco
Miguel Branco
Campos de Trigo
Pára. Já não consigo aguentar o teu peso. Pára de me empurrar para onde eu não sei ir, para onde o cheiro é diferente e silêncio não deixa ninguém falar. Que avassalador, o modo como me sinto observado no redor de ninguém. Nem um ancião aos tropeções na sua filosófica barba, nem um nómada que se perdeu a caminho de casa, nem um gnu que seja a fugir de um leopardo. Pior, nem um chinês.
E foste tu que me fizeste cair para estes campos de trigo intermináveis. Que castigo é este? Neste sítio, o silêncio é um ditador. Persegue-me até ao último trigo, a qual eu nunca cheguei. Não me deixa gritar, nem suspirar, ele ocupa todas as partículas invisíveis e ondas magnéticas com códigos estranhos, que me permitiriam exprimir-me, oralmente.
Puxa-me para fora daqui, eu não sei viver deste modo. Eu cresci com o silêncio, aquele que é bonito, que diz tanta coisa, sem nada dizer. Não quero, nem posso conviver com este. É inquisidor, multiplica-se em cada trigo, e daí propaga o seu eco milhões de vezes. É um ruído total e incompreensível.
Não vejo mais nada. Só amarelo meio torrado, que eu nunca odiei tanto. Nem sequer uma colina ou um vale com uma nascente?
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Já não estou lá. Alguém me trouxe de volta, e não foi o silêncio que eu sempre amei, nem o amarelo que eu desde pequeno idolatro. Foi alguém que me deu um local hollywoodesco, com que eu sempre sonhei. E me deixou estar, a observar, sem conseguir dormir, sem conseguir falar.
Se um dia assim o quiser, torno qualquer bela num monstro.
Miguel Branco
Para ti e por ti, uma carta aberta. Sem dúvidas que se tornam aves, nem recuos que soem a despedidas emocionais por uma eterna janela de comboio. Não quero clichés que já cheiram mal, de tão velhos e gastos que estão. Precisamos de encher a nossa caixa secreta, e eis que cumprimos a tradição: uma carta no dia em que beijas a maioridade. Podia tornar esta carta numa coisa chata, em que apelava pelas tuas responsabilidades (como se fosse preciso), em que incorporava uma personagem de cinquenta anos e falava dos voos e das quedas com que a vida nos congratula.
Mas isso não seria eu. Eu gosto de te florear e de te mimar com palavras perfumadas. As vezes sinto-me ridículo, como se te tivesse conhecido ontem e tudo isto fosse um flirt a tomar proporções gigantescas e assustadoras. E mais, como se a nossa história fosse como a comum das mortais, em que dois olhares se cruzem, se aproximam e quase se tocam, para depois se afastarem e voltarem mais tarde a unir-se de facto. Ou pior, como se nos tivéssemos beijado pela primeira vez numa sala de cinema (não é que eu não tenha tentado). Acho que ninguém teve um primeiro beijo num sítio tão cómico como nós (desculpem caros seguidores de comtexto depois conto-vos, um dia mais tarde).
Com dezoito ou com quarenta e cinco, serás sempre tu. E eu serei sempre eu, e estarei sempre no mesmo local, se houver forças para isso: ao teu lado. Parabéns pequenina.
Teu, hoje e sempre,
Miguel Branco
Calma. Ele está a bater muito depressa.
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Onde vais tu deambulando por esses planaltos já visitados e por essas pedreiras de cores asfixiantes? O que procuras nessa natureza que esmaga pensamentos e corrói criatividade? Porque queres fazer uma tempestade com as próprias mãos e erguer um tornado que absorva os dois hemisférios?
E não queres ser culpado. Não queres que ninguém fique para te apontar o dedo. Sobram telhas em trezentos pedaços, sinais de trânsito amachucados, carros sem direcção.
Querias o ostracismo global e o que seria de ti? Serias o único Adão, no teu personalizado jardim de éden, onde as cinzas reinavam e o cheiro dos cadáveres te ia queimando o desejo de viver. Eras já parte da vegetação, o teu sangue ia arrefecendo e eras nativo daquele local. Que é feito da tua linguagem e forma de comunicação humana?
Perdeste os poderes. E os olhos abriram lentamente.
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Calma. Já expeli a minha angústia. Ele voltou ao ritmo normal.
Miguel Branco
Que sensação esquisita. Não sei bem o que sinto, e eu acho que sei sempre o que sinto, mesmo que não o saiba. Procura algo distinto num destes cantos da sala, mas se não vejo abajures tortos e infelizes, vejo peças artesanais que outrora me davam alento. E ver não me chega, nunca chegou. Preciso de estabelecer uma conexão, por mais idiota e ridícula que seja. E não, não é ver para além do que os olhos vêem, porque de facto são eles que o fazem, seja de uma forma mais superficial ou mais profunda. Viajando nas partículas com nomes químicos e microscópicos cujas suas fórmulas fazem doer a cabeça, vou-me aproximando. Muito lentamente. É assim que vou colocando etiquetas, de olhos vendados, são nomes próprios, próprios de minha autoria e não de um grupo de substantivos próprios. Com letra grande, como dizem as crianças. Todos vemos com dois olhos, todos sabemos ser observadores, todos temos uma maneira diferente de nos aproximar. Sim, aproximar. Porém, sem conseguir entender.
Eu não disse que achava que sabia sempre aquilo que sentia?
Miguel Branco
São 3.30 da manhã, a minha mãe vai-me bater.
Mas hoje o meu blogue não me deixou ir dormir. Chegou a ameaçar-me de que nunca mais colocaria acentos e as pessoas iriam rir-se de mim. E aquelas que se preocupam corrigiriam primeiro, só depois disfarçariam, elogiando o “magnífico” texto. “A sério Branco está fantástico, só reparei no erro porque gosto de ler muitas vezes”. Estava tão irritado que era capaz de ir aos meus registos de MSN buscar uma conversa de 2008, para me atirar com uma frase destas à cara. Desculpa mãe por estar acordado. Desculpa blogue por estar de férias.
Eu bem sei, eu bem sei que a escrita não tira férias e que há internet em cafés e em tascas com cheiro a linguiça.
Mas eu tiro férias. E tu já me conheces, eu não tiro férias da faculdade ou do andebol, sem antes tirar férias de mim. Tirar férias de mim, é tirar-me a escrita. Já sei o que vais dizer…mas as coisas não são bem assim. Eu já não escrevo tanto, mas durante as aulas sempre vou escrevendo. Durante esse tempo não estou a 10 km/h (ainda que as vezes possa parecer), vivo num fervilhar de acontecimentos e batimentos. E quando reparo não consigo ser eu. Não tenho tempo? Mentira. Não tenho paciência? Talvez, mas não é desculpa. Não consigo, ponto final.
É algo que me intriga há algum tempo. Isso e não saber ao certo quando sou eu, se nas férias, se durante o ano lectivo. Mas estou convencido que sou eu nas férias. Quando tenho tempo para ter calma, quando desapareço para a maior parte, quando não tenho que ir ao portátil ver o e-mail, quando não tenho que ler por obrigação. Não sabe tão bem? E vais dizer que a ti não te sabe bem, não ouvires o meu jornal da tvi todas as semanas?
Mas está descansado, o stress vai começar a surgir, daqui a um mês já estou a engolir em seco, já consumo tudo o que me acontece, em tão pouco tempo, nas viagens de comboio, metro e autocarro. Aí podes sorrir, sabes que me tens de volta. E podes aconchegar-me com a tua frase preferida “Desculpa Miguel, mas até gosto quando te sentes em baixo.”
Miguel Branco
Que raiva. Não costumo ser assim, mas chega a uma altura que isto cansa.
Dá-me a sensação que me assemelho a um puto de 5 anos vingativo, que se saliva todo quando lhe roubam o carro telecomandado. Puro azar. O passeio está esburacado…e agora? Chovem pedras da calçada para esses estupores do destino, ou do karma, ou daquela entidade que leva as pessoas de ao pé de nós.
Que injustiça. Não costumo ser assim, odeio clichés, mas quase parece verdade.
São sempre os mesmos, os melhores. Os piores vão ficando e rindo satiricamente, mesmo quando o sol os acorda através dos quadradinhos de metal e o recreio é as 15 horas.
Portugal acordou encolhido. Uma pontada na coluna fez Sagres balançar para trás. Um soco no abdómen fez oscilar Lisboa. E assim foi em todo o país. Felizmente ninguém se esquece. Dói. Retraímo-nos em conjunto, mas recordamos, exaltamos, choramos.
Está no núcleo duro deste pequeno país. Esperamos que ainda estejam mais por nascer. No teatro, na rádio, na televisão, no desporto, na literatura. Homens e mulheres de excelência que nos fazem andar com o peito inchado pelo estrangeiro.
Nunca parámos de rir. Não nos cansámos de ouvir a sabedoria e humildade com que nos foste brindando, principalmente nestes últimos meses.
Não é tempo de gritar pela injustiça da vida, não é não. É tempo de deixar cair uma lágrima de homenagem e sorrir ao som das últimas e infinitas palavras.
Que a beleza do teu nome nos conceda um dia.
E hoje, por um dia sejamos todos fantasticamente Feios, no coração, na face, nos olhos, no nosso íntimo e na nossa sombra.
Se cada um fosse tão Feio como tu António...
Descansa