Perdoem-me a ignorância ou a falta de memória mas já era tarde quando li ou vi, não tenho bem a certeza, alguém a indagar retrospectivas amorosas. Alguém que expressou a necessidade de o ser humano não compreender o amor. E de facto, este pensamento, fez-me coçar a barba, minha eterna conselheira.
A necessidade de decorarmos datas, feitos e factos, ruídos e rugidos, viagens e jantares, é uma prática corrente, um pergaminho de auxílio para se retratar uma relação. Sem ela muitos se sentiriam vazios. Sem oportunidades de comemoração, sem dias fúteis de discussão em que o esquecimento de uma dessas datas pode ditar o fim. Sem mais espaços exclusivos, a conversa não termina, a música muda de ritmo, o olhar distancia-se e muitas vezes, muda de cor.
Há quem use o relógio. “Um banco por favor”, retira-se o relógio da parede para poder descansar, o ponteiro das horas já estava perro e o dos segundos parecia uma corneta viking a mandar reunir os seus guerreiros. Esquecem-se que quando o recolocam por cima da lareira, ele não se acerta sozinho. Nem sempre a extracção da ferrugem e do pó é sinal de que os ponteiros vão ganhar novo sangue.
As pessoas precisam de documentar o amor, para no fim fazerem uma fogueira de despedida, com lágrimas de fúria e desilusão. O amor é uma invenção abstracta que tem como objectivo não ser entendida, colocar as pessoas a pensar, e outras vezes, vincar desgostos e criar ódios. E quanto mais se pretende perceber os meandros de algo que rege a nossa vida, mais confuso se fica, mais tempo se gasta em livros da Grécia Antiga, mais raízes negras se propagam e contaminam os sentimentos. E menos se comunica, menos se estende a mão, menos se escrevem romances sem clichés. E sobretudo, mais se mente em relação ao que se sente.
Cada um define o amor como o pretende viver. Eu não percebo o amor, nem quero perceber.
Miguel Branco