23/01/11

Orgulho

Já não sinto o cheiro do teu cabelo. Em cada lance de escadas, em cada curva mais apertada. De nada, não de gente. O nada também ocupa espaço. Também sabe de onde vem, para onde vais, que sentido tem esse olhar. E tu não o ouves. Não o vês. Só a ti te vês, em lagos gelados do Alasca, onde te sentes em casa. No gelo. No frio que hoje queima os lábios e amanhã queima as artérias. Não gostas do nosso frio, tão cheio de maresia, tão português (mesmo quando surge do local mais remoto do planeta). É nosso porque se aconchega aqui por uns tempos. Quem serás tu para o menosprezares? Chega. Pára de aumentar as importações de sentimentos. Exporta. Confronta o nada quando ele te acende os olhos com um fósforo inflamável. Resiste. Convida o silêncio, ele também gosta de ser escutado. Não sejas normal. Não queiras ser mais um. Não tenhas medo, ser sensível não é defeito. É orgulho. Olha em frente.

Miguel Branco

(PS: votem bem minha gente)

26/12/10

Avalanche

Que ruído estranho. Logo aqui, onde neva o ano todo e o som permanente não é mais que o voo de aclamação das aves de rapina. Ainda ouvimos, ainda cheiramos, ainda sentimos, ainda sobrevivemos. Construímos o boneco de neve e mandamo-lo abaixo. A seguir colocamos uma cenoura a fazer de nariz. Quando refazemos o boneco usamos a mesma neve, já nem parece fria nas mãos enrugadas. Não usamos luvas nem pranchas e a tenda chega perfeitamente para resistir ao frio. Mas hoje este fragor que oiço lá ao longe ainda não parou. Vem aí mais uma avalanche e ninguém é capaz de avisar. Onde é que tão as aves agora? Agora é correr. Parar. Respirar. Voltar a correr. Aos poucos sem me deixar alcançar por este demónio dos glaciares e montanhas. Por fim sento-me, olho para trás e ela ainda lá está. E eu ainda aqui estou.

Miguel Branco

15/12/10

Perdi-te(me)

Perdi-te. Naquele dia em que algo tomou conta de mim. Não me conheci, não me ouvi, nem vi o tremer dos meus braços, os livros pelo ar, o sangue a subir-me à face. Desde esse dia nada escrevi. Desculpas? Justificações? De que servem? Quando o que foi dito foi dito e a borracha, com que agora apago as palavras censuradas pela minha inquisidora consciência, não elimina palavras naquele tom. Nem tu, que sempre me deixas depositar em ti tudo o que guardo, me reconheceste na pior tarde da minha vida. Até de ti, por mim, tive vergonha. Pior e a última tarde que vivi. O relógio não voltou a andar, oiço tudo, letra a letra, em vários idiomas e alfabetos. Os ponteiros estão no mesmo segundo em que a última lágrima caiu. Pela primeira vez (para mim) o tempo parou, esse ingrato que nunca esperou por ninguém. Nem para a frente nem para trás, se ao menos o cuco ainda cantasse, se ao menos eu ainda fosse aquele que era antes de falar. Mas não sou, nem para quem o fiz, nem para mim. Não o podia ter feito. Mas fiz. Não nos podia ter desligado, mas desliguei. Com curto-circuito, no teu gigante coração que tão subitamente mirrou. O teu olhar mudou naquele dia. Perdi-te. Perdi-me. Fiquei. Não acredito.

Miguel Branco

22/11/10

Cliché

Dá-me lume. Cliché. Acendo o cigarro e respiro fundo. Cliché. A olhar para o mar questionamos o nosso “nós”. Cliché. O nó aumenta, os olhos humedecem, as palavras fazem dor de garganta. Cliché. As lágrimas caem e as cabeças baixam. Cliché. O desgaste e o abraço. Cliché. Seguimos para o café, outro cigarro. Cliché. O fumo custa a travar, que futuro? Cliché. Não quero desistir já. Cliché. As mãos tremem, o coração entra em erupção. Cliché. Tanta lava em forma sentimental. Cliché. Não vás. Cliché. Passeamos de mão dada. Cliché. No último sopro, o último beijo. Cliché. Não me deixes. Cliché. É o melhor. Cliché. Viraste costas e partiste. Cliché. Eu fiquei parado a ver-te ir e a aproveitar a minha última imagem – tua. Cliché. Qual cliché? Cala-te. Cliché. Cliché. Amo-te. Cliché.

Miguel Branco

27/10/10

Campos de Trigo

Pára. Já não consigo aguentar o teu peso. Pára de me empurrar para onde eu não sei ir, para onde o cheiro é diferente e silêncio não deixa ninguém falar. Que avassalador, o modo como me sinto observado no redor de ninguém. Nem um ancião aos tropeções na sua filosófica barba, nem um nómada que se perdeu a caminho de casa, nem um gnu que seja a fugir de um leopardo. Pior, nem um chinês.

E foste tu que me fizeste cair para estes campos de trigo intermináveis. Que castigo é este? Neste sítio, o silêncio é um ditador. Persegue-me até ao último trigo, a qual eu nunca cheguei. Não me deixa gritar, nem suspirar, ele ocupa todas as partículas invisíveis e ondas magnéticas com códigos estranhos, que me permitiriam exprimir-me, oralmente.

Puxa-me para fora daqui, eu não sei viver deste modo. Eu cresci com o silêncio, aquele que é bonito, que diz tanta coisa, sem nada dizer. Não quero, nem posso conviver com este. É inquisidor, multiplica-se em cada trigo, e daí propaga o seu eco milhões de vezes. É um ruído total e incompreensível.

Não vejo mais nada. Só amarelo meio torrado, que eu nunca odiei tanto. Nem sequer uma colina ou um vale com uma nascente?

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Já não estou lá. Alguém me trouxe de volta, e não foi o silêncio que eu sempre amei, nem o amarelo que eu desde pequeno idolatro. Foi alguém que me deu um local hollywoodesco, com que eu sempre sonhei. E me deixou estar, a observar, sem conseguir dormir, sem conseguir falar.

Se um dia assim o quiser, torno qualquer bela num monstro.

Miguel Branco

12/10/10

Carta aberta

Para ti e por ti, uma carta aberta. Sem dúvidas que se tornam aves, nem recuos que soem a despedidas emocionais por uma eterna janela de comboio. Não quero clichés que já cheiram mal, de tão velhos e gastos que estão. Precisamos de encher a nossa caixa secreta, e eis que cumprimos a tradição: uma carta no dia em que beijas a maioridade. Podia tornar esta carta numa coisa chata, em que apelava pelas tuas responsabilidades (como se fosse preciso), em que incorporava uma personagem de cinquenta anos e falava dos voos e das quedas com que a vida nos congratula.

Mas isso não seria eu. Eu gosto de te florear e de te mimar com palavras perfumadas. As vezes sinto-me ridículo, como se te tivesse conhecido ontem e tudo isto fosse um flirt a tomar proporções gigantescas e assustadoras. E mais, como se a nossa história fosse como a comum das mortais, em que dois olhares se cruzem, se aproximam e quase se tocam, para depois se afastarem e voltarem mais tarde a unir-se de facto. Ou pior, como se nos tivéssemos beijado pela primeira vez numa sala de cinema (não é que eu não tenha tentado). Acho que ninguém teve um primeiro beijo num sítio tão cómico como nós (desculpem caros seguidores de comtexto depois conto-vos, um dia mais tarde).

Com dezoito ou com quarenta e cinco, serás sempre tu. E eu serei sempre eu, e estarei sempre no mesmo local, se houver forças para isso: ao teu lado. Parabéns pequenina.

Teu, hoje e sempre,

Miguel Branco

05/10/10

Pesadelo

Calma. Ele está a bater muito depressa.

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Onde vais tu deambulando por esses planaltos já visitados e por essas pedreiras de cores asfixiantes? O que procuras nessa natureza que esmaga pensamentos e corrói criatividade? Porque queres fazer uma tempestade com as próprias mãos e erguer um tornado que absorva os dois hemisférios?

E não queres ser culpado. Não queres que ninguém fique para te apontar o dedo. Sobram telhas em trezentos pedaços, sinais de trânsito amachucados, carros sem direcção.

Querias o ostracismo global e o que seria de ti? Serias o único Adão, no teu personalizado jardim de éden, onde as cinzas reinavam e o cheiro dos cadáveres te ia queimando o desejo de viver. Eras já parte da vegetação, o teu sangue ia arrefecendo e eras nativo daquele local. Que é feito da tua linguagem e forma de comunicação humana?

Perdeste os poderes. E os olhos abriram lentamente.

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Calma. Já expeli a minha angústia. Ele voltou ao ritmo normal.

Miguel Branco