05/01/13

Descobrimentos

Tinha que ser assim. Ou isso ou vislumbrar as naus a chegar à Índia como se Vasco da Gama não soubesse o que está a fazer. Qual escolherias? Agora certo, certo foi a primeira coisa que fiz ao virar do ano, que esta esquina já cheirava a hortelã em excesso. Há quem ainda esteja por lá, como há quem se afogue em doze passas de ilusão. Os que sobram fingem que lhes é indiferente, quando todos sabemos que mais facíl não há. Mas não estão sozinhos. Quase me esquecia dos que pedem pela champions do glorioso quando já não estamos lá. Ou daqueles que se não beberem champange vão ter um acidente ou perder o emprego. Ainda existem os clássicos que mandam os políticos para as ortigas com panelas e tachos. E os que distribuem mensagens predefinidas só para poderem dizer que o fizeram. Os que rejubilam com o fogo-de-artifício e cinco minutos estão enfiados numa cama (como se os adereços a tornassem a melhor de sempre). Os que resolvem questões pendentes pela nostalgia da época. Aqueles que param de fumar, os que tentam e os que começam a fazer jogging ao som do mar. E ainda os que vão almoçar ao Tavares porque o dinheiro vai acabar. E eu? Eu sou o Vasco da Gama. Até para o ano.

Miguel Branco

11/12/12

Não conta

Há quanto tempo. Não espreitava para dentro de mim. Mas estou normal: tipicamente desnorteado. Sem previsões para a ementa do lanche, nem se sexta dou um salto ao cais. As divergências como cartaz de não orgulho, de rejeição. Achava que quem não trazia complicações dormia em encosto de acalmia. Mas conta mais o que não é visto, aquilo que não se quis ler, porque amanhã bem cedo há que ir trabalhar. O desvio de olhares, fixados nos pecados, já que o futuro está por aí e carrega uma tempestade de vivências. É a irresponsabilidade e arrogância juvenil, que derruba qualquer resistente e castiga quem se julga livre. Há quanto tempo não te via querida incompreensão. Ou é da minha vista ou estás mais gorda.



Miguel Branco

10/11/12

Folgas

Parece que tenho medo. Viste? Ainda agora tremi outra vez. Assombram-me as palavras que se amontoam no meu sotão, teses de literatura breve e demasiado supérfula. Tenho medo de voltar a não conseguir terminar este. De me dizer que já não sei. O tim-ba-la-lão das músicas deprimidas que têm a mania que mandam em mim, pobres coitadas. Mas também não sou eu. É antes o dia da tua folga. A tua insistente ideia de me tapares com três mantas, quando sabes que sofro de calor, mesmo nos dias de cacimba. É o meu acordar-te que tanto te irrita, mas que te sabe invariavelmente bem. São os jantares grátis em lugares que não nos pertencem. É a tua estranha ingenuidade, que só comigo não tens. Assim como o teu feitio respondão, sempre pronto a disparar verdades desagradáveis à cara dos mais próximos. Mais que isso, é a forma como falas de nós um ano e meio depois. Com a certeza de que o futuro já não é um tema tabu. Mas também não é preciso idealizar uma casa a nosso gosto e o quarto para os nossos filhos. Lá nisso amor, estamos de acordo.

Miguel Branco

14/09/12

Ainda ontem


Já não me lembrava como era. Como as vestes enganavam o vento e assentavam nos olhos dos pobres coitados. Ainda ontem era eu. Que me enclausurava em camisas velhas do meu pai só para não mostrar quem sou, como se isso fosse possível. De patilhas atrevidas, bigode mal formado, sempre a recolher restos de cerveja, invejoso. O olhar era curto, fugaz, preso ao solo, arrastado em respeito. Nunca outrora o levantar-cedo-e-cego-erguer tinha tido tanto nexo, tanta lógica invertida tropeçando o grito que jamais esqueci. Sim, porque isso de complicar contas e inventar tabuadas com letras romanas como se fosse o bê-á-bá da bicharada não está ao alcance de um engravatado no metro. Antes pelo contrário, mais se aplica a um selvagem com um remendo do Rik & Rok a cobrir o joelho, sem emprego e com o futuro por um canudo. Ainda ontem éramos nós. A proferir palavras de complexa pronúncia, sem saber bem o seu significado, um latim que se amarrou ao coração, sem aviso prévio, com as unhas espetadas a um f tremendo. Ainda ontem deixei de ser. Ainda ontem me quis enganar e pensar que me ia sentar a fumar enquanto vos via crescer. Ainda ontem desci as mesmas escadas de sempre com os olhos húmidos e um sorriso de orgulho. Ainda ontem disse que não ia. Ainda hoje voltei e quem pagou foram vocês, aqueles que um dia ousei indicar um caminho duro, mas intenso. Ainda hoje me lembrei como era. Devo-vos tanto como vocês a mim. Somos assim.

Miguel Branco

02/09/12

Dia sozinho


Comecei pelo fim e adormeci. Deitei-me, mandei a mensagem e fui tomar banho sem ouvir a porta do quintal mais o vento. Saí de casa e acordei, os lençois estavam frios e o despertador já me irrita. Fiz tudo ao contrário. Estive no início do século XX e ninguém acredita...como é só meu. Fui trabalhar sem que nenhuma sombra sentisse o aroma da minha ausência, reparaste? Tudo a achar que me sentei e falei, se alguma vez soubessem de que madeira sou feito. Estive sozinho o dia inteiro, cheio de ninguém, farto de mim e vazio de vocês. Viro a cara à luta e continuo normal. Lunático que sou, longe de mim. E acabo aqui, de volta ao que fui, que há meses larguei. Ostracizo-me diante de ti, vizinha e casa em tempos de outrém. Um dia sozinho, como me soube tão bem.

Miguel Branco

03/05/12


Desculpa

Um reverso meio torto. Agora. Parece que desaprendi, abandonei-te.
Breves vazias e desgastantes, como o regresso de uma epopeia interminável, um acordar de noite em solidão dispersa.
Informação dispensável, a vírgula no sítio certo, a interrogação escondida, a exclamação sem vontade, o ponto final. Pontuação da minha vida, tão cruel, demasiadamente real para aquilo que um dia quis deixar. De mim. Desculpa-me meu ouvinte… São dias eternos de escuta e de um receio quebradiço, quase não consigo ter tempo para me ver, narciso que sou. Logo neste momento em que estou mais perto de me tornar homem, de barba por fazer, à descrição do meu saber, ao saber da urgente aprendizagem. Nasci cego, ao contrário de ti. Nasceste mudo, mas dizes-me tanto. Tu que me esperas na minha mesa-de-cabeceira, tu que sabes de onde venho, tu que reconheces a água no meu olhar ao ouvires os meus passos quando piso o granito frio das escadas enquanto largo um suspiro de exaustão. Ignoro-te sem intensão. Também assistes a tudo, sei que compreendes o silêncio moribundo, o nó na garganta, o desejo intensivo de esquecer…e explodir.
Não penses que me esqueço de ti. Conheces como poucos a necessidade que tenho de estar comigo, de desabafar comigo…e contigo. Não me deixes só, mas deixa-me estar…assim. Desculpa.

Miguel Branco

12/04/12

Incondicionalmente

Escrever sabe a pouco. Alguém nos vê a descarregar cada resto de nós em cada tecla? Alguém sabe o que somos, em palavras plácidas ou efervescentes, em rugídos inúteis e desgastantes, em vírgulas incorrectas ou em pontos finais que parecem não resolver a frase? Não.


Eis o que somos para o papel, para os amigos que nos lêem, para o mundo que esperamos conquistar através de alguns trechos de nós, de algumas células menos moribundas, de lágrimas duvidosas. Nunca seremos o que escrevemos. Talvez sejamos o que gostávamos de ser.


Não te escrevo uma carta. Acalmo-te, seguro-te a tristeza com um pano roto e velho, e esqueço-me de mim. Não li num jornal, não ví nas notícias, ouvi-te dizer por palavras injustas, descuidadas. Sabiam a fusilli com atum de há cinco dias atrás. Vácuo. Nunca soube fingir, torno-me um nóctivago pseudo feliz em volta dos meus. Mas amanhã o tempo não muda. Vai nascer encoberto, ganha luz após o almoço e entristece com o chegar do vento. Não me leves tudo porque ainda precisas de mim. Não me acaricies com a satisfação implícita da tua vitória moral e incoerente. Eu não gostei, não falei, só escrevi. Fui insultar o Tejo por estar tão sujo e não se limpar. Fui descobrir o preço da vista para Lisboa só para não ter de voltar. Mas amanhã é outro dia e eu farei o mesmo por ti, ainda que me esqueça de mim.




Miguel Branco

22/03/12

Espelho Partido

Nem sempre me lembro onde estive. Com quem troquei desassossegos escondidos, com quem partilhei o silêncio sem pagar, com quem dancei poesia gasta e banal. Não me recordo da roupa que usei, nem de olhar as horas, nem de ser preguiçoso e idealista, como sempre sou. Encho-me de mim, dos devaneios de miúdo, das expressões dispensáveis, do cheiro a lágrimas nunca confessadas, das conversas necessárias que prefiro não ter para não me ouvir toda a manhã seguinte.



Não me lembro porquê. Não me lembro de esperar por mim, nem de me repetir constantemente, nem de pedir um café e deixá-lo arrefecer. Não me recordo de querer ser mais e ver os dias a passar discretamente. Mal sei o que me contou o meu espelho. Talvez precise de não me lembrar. Talvez não queira. Talvez não consiga. Talvez me lembre quando não me restar mais nada.







Miguel Branco

29/02/12

As maçãs e os comboios a passar

Gostava de ter uma casa em que se ouvissem os comboios a passar. Em que imaginasse o frenesim absurdo das pessoas, os choques nas escadas, a aglutinação na entrada das carruagens. E eu a saborear a manhã, a acordar com o seu fresquinho, mais um café e um cigarro. Como se daquela casa eu visse tudo. Um planisfério interior da vida de outrém imaginada por mim, em breves recortes sonoros, em avisos com vozes cansativas onde se pede a compreensão dos passageiros. Mas o comboio terá um atrasado de cerca de 17 minutos, que mais parecem três horas.


As mais diversas linhas, as mais complexas ligações, ferrovias que me confudem o destino. Visto-me, oiço a rádio, perco-me nos livros do móvel antigo, leio os episódios nóctivagos que a calçada guardou para me confessar e nem sequer reparo.


Depois preciso de me sentar, de apreciar os ponteiros a girar lentamente, preciso da tua cabeça no meu peito, do teu amor em silêncio ao desviar das persianas. Da tua birra de sono, do teu jeito de refilar sem parar de rir, da tua mania de não me deixares sair da cama e da tua irritação quando te pergunto se queres uma maçã. É impossível uma maçã dar-te ainda mais fome. Mas por mim não há problema, tomamos o pequeno-almoço na esplanada.



Miguel Branco

12/02/12

Novo dia

Fazes declarações sombrias daquilo que sou. Vês sem olhar, preferes não sentir o vento a dar-te alguma luz à retina. Cospes palavras e cospes-me para um beco sujo, tornas-me vizinho dos ratos. As escadas de incêndio cheias de ferrugem, o odor ao desgaste, à ruína inscrita em pacotes de cartão húmido com pedaços bolorentos de um chilli barato e picante. Um sapato solto, sem sola, que não esconde as feridas dos pés e não protege do frio. Viraste costas, não ouves o meu desespero em conversa com a velha do 7º andar, que finge não me ver e me chama desgraçado pelo seu olhar. Como o prato do dia do italiano da esquina passado uma semana. Estás cega e surda, só ouves os teus próprios gritos inesgotáveis, em mentiras conscientes. Declamo poesia de rua, da minha autoria. Ninguém escuta, convidam-me a subir ao terraço e sinto-me a cair. A morte não é solução, apesar de ser uma tentação. Que noite terrível, tenebrosa, tudo parecia tão real.


Bom dia amor, dormiste bem?




Miguel Branco

14/01/12

Eu não digo

Sempre falámos a mesma língua. Sempre te riste quando ninguém achou piada. Não por compaixão, mas porque achaste graça. Sempre disseste que sou igual à minha mãe. E eu a negar. Sempre quiseste pensar que não ia durar. Para te defenderes. Sempre te auto-proclamaste o homem da relação. Sempre te escondeste para chorar. Sempre me levaste à estação. Sempre propuseste que fizéssemos uma paragem no caminho. Sempre me apontaste o dedo. Sempre pensaste, sem sequer a ti própria o admitires, que eu podia ser melhor. Sempre gostaste de ir aos sítios onde nunca tinhas ido. Sempre adoraste o meu gato. Mesmo chamando-lhe nomes. Sempre deixaste os teus óculos escuros na minha mesa-de-cabeceira. E o líquidos das lentes. E, as vezes, os ganchos para o cabelo. Sempre foste deixando parte de ti comigo. Sempre fizeste questão. Sempre recusaste dizer sempre. Sempre disfarçaste. Não se passa nada. Sempre arrotaste depois das minhas divagações culinárias. E sempre quiseste repetir. Sempre odiaste que te desse a mão para atravessares a estrada. Sempre me acusaste de ouvir barulho. Em vez de ouvir música. Sempre adoraste os meus ombros. Sempre disseste que a culpa era minha. Sempre odiaste quando falo à moda da margem sul. Sempre me provocaste a escolher a roupa do teu armário. Sempre quiseste o meu colo. Sempre fomos nós. E nunca te importaste. Sempre consumimos as paisagens como se fossem exclusivas. Sempre recusámos fazer planos a longo prazo. Sempre gozámos com as noites em que éramos para dormir juntos, e não sucedeu porque combinámos previamente. Sempre utilizaste palavras demasiado fortes quando discutimos. Sempre fingiste que te enganavas quando surgia a pergunta: “há quanto tempo namoram?”. Sempre esperaste não me amar tanto. Mas não conseguiste. Deixa-me dizer sempre, mesmo que hoje não queiras ouvir. Eu juro que não digo: para sempre.




Miguel Branco

02/01/12

O espanhol de Pamplona

Não sou só eu. E eu sempre pensei que sim. Pediu licença e sentou-se desajeitadamente, enquanto eu devorava a minha sobremesa literária depois do almoço. De súbito, vejo-o a gesticular e a expelir um castelhano acessível em direcção a ninguém, que por breves instantes imaginei que fosse para mim. Não era.


A barba cerrada e densa, o cabelo extenso e gasto e um olhar profundo e esverdeado, como o quintal da nossa infância. Enfim falou para mim. Com a simpatia e simplicidade que já tinha demonstrado, o espanhol pediu-me para enrolar um cigarro. Perguntei-lhe se sabia enrolar e a resposta foi afirmativa, até porque os espanhóis têm esse hábito, referiu-me ele no nosso curto diálogo. Não sei ao certo se fui eu, se me resguardei demais dentro do meu livro, se ouvia as suas conversas ou se lia o meu livro e o traduzia automaticamente para castelhano dentro da cabeça. Não sei, mas tenho a minha convicção: ele é que não tinha tempo para falar comigo.


E foi aí que percebi que não sou o único. Há alguém no mundo, que com os seus 30/40 anos ainda tem um amigo imaginário. Eu tenho amigos (não imaginários) que me gozam quando eu admito a existência do meu amigo, e posso em certas circunstâncias aproveitar para entrar em certas brincadeiras, mas este assunto não tem uma piada especial. O meu amigo imaginário não tem de ser perfeito, não tem de ter um nome pacóvio, não tem sequer de ter uma forma. O meu amigo imaginário é uma cadeira vazia, é uma letra maiúscula num outdoor, é uma nuvem matrafona a vender peixe no mercado. Ele aparece quando precisamos de discutir política, de chamar nomes às mulheres e de questionar o futuro de uma nação enterrada há 35 anos.


Não espreitei inúmeras vezes a conversa do espanhol com o seu amigo, ouvi umas interrogações sobre a sociedade e o estado social, umas filosofias à borla que sabem tão bem quando estamos cheios. Soube que era de Pamplona, mas não quis alongar-me que ainda íamos parar às touradas. De Pamplona...o espanhol. O amigo é de onde tem que estar. Como o meu.


Os amigos imaginários não morrem aos 8 anos, crescem como nós e crescem connosco. Perdem o nome e tornam-se (quase) a consciência.




Miguel Branco

18/11/11

História Banal

No início não acreditei. Aos meus olhos parecia-me uma história banal, um sorriso tímido e uma hortênsia meio caída. Comecei a ouvir os passos de um cavalo, altivos, de queixo levantado, a querer ganhar velocidade. Que confusão, já vi esta história. De súbito ganhava as proporções de um western, as pistolas a sair do cinto de pele, o barulho das balas a encaixar no revólver. Mas engana-se quem pensar que houve disparos. Soltaram-se bandeiras brancas de rendição, de vontade, de desejo efervescente. Ele respeitava e ela não queria que ele o fizesse, mas não deixava que fosse de outra forma. (Aqui entre nós...as mulheres perdem-se).


A distância: meio milímetro. A vontade: toda a noite. E lá se esconderam no quarto, com vinho no sangue e desejo nos lábios, que nunca se chegaram a tocar.


Ninguém sai fora. Ninguém desiste. Mas a distância não muda e o cansaço acaba por chegar. A garganta secou e o silêncio não forma palavras. Até que, de olhos nos olhos, a mentira foi proferida. Numa história banal o mais fácil é o melhor. Decide-se aquilo que evita granizos pela madrugada e lábios gretados pela manhã. No final não acreditei. Mais uma história banal se assim é teu desejo.



Miguel Branco

09/11/11

Avião de papel

Plantei a semente e nem reparaste. Nem deste conta quando a ia regar todas as manhãs ao sabor de um café. Eu a pôr o pacote inteiro de açúcar, tu punhas metade. A chávena aquecia as tuas mãos quase roxas e o fumo saía envergonhado da tua boca. O teu casaco bege e o cachecol cinzento a cobrir-te o pescoço, o batom que espalhavas cuidadosamente pelos lábios e a natural falta de conversa. Tal como eu...não gostas de falar às oito horas da manhã. As poucas palavras saíam arrastadas e rabugentas, que é para isso que servem os encontros matinais, para nos queixarmos do ontem e rejeitarmos o hoje.


Já nem combinávamos, simplesmente aparecíamos. Cada dia diferente, uns brincos brilhantes, umas camisolas sensuais. A semente a ser regada inconscientemente. Cada dia nos sentávamos mais perto, o frio ainda era desculpa, mas na primavera não batia certo. Um dia foste embora e voltaste atrás, um dia deixámos o autocarro passar e os nossos olhares não se largavam. Nesse dia reparaste na semente, não a identificaste, não lhe viste a cor nem a forma, julgaste-a de papel. Fizeste um avião, assopraste e atiraste ao infinito.


A semente já estava enorme, as raízes bem fixas, era de papel consistente. O avião de papel regressou à palma da tua mão. Hoje já nem te recordas da semente, do básico avião de papel que se aprende no recreio da escola primária. Hoje construímos um pomar. Amanhã teremos uma quinta.



Miguel Branco

17/10/11

Vozes

No fim da tarde sou eu. A varanda cheia de roupa, o sol a despedir-se, o cigarro e eu. Conversas de enterro, o gato não pára de bater no vidro e eu nem oiço. As rolas aninham-se no pinheiro, escutam-me e comentam. Já nem penso nos gritos da puta da vizinha, ela que os faça, alguém que os consuma.


Tenho monólogos múltiplos, vozes em eco sobrepostas em mim. O mármore da mesa congela-me o cérebro e, subitamente, os meus pensamentos estagnam e coloco o cigarro no cinzeiro. Sobra uma dor de cabeça massiva que me encolhe os poucos devaneios que me libertam, mas que também me acorrentam. Não consigo fugir de mim, não sei falar de outra forma.


O sol já se escondeu, as luzes dos aviões confundem-se com estrelas, a roupa tem que se apanhar, não vá a humidade fazer das suas. O gato já dorme no sofá, as rolas foram-se alimentar, a vizinha ficou roca. E as vozes continuam a dialogar dentro de mim, enquanto bebem um chá preto e comem uma torrada com doce de amora. No início da noite sou eu.




Miguel Branco

11/10/11

Não me larga

Conto as pedras de calçada que faltam para chegar. Umas já são passeio. Outras nunca foram. O toque, o aviso e a fechadura, que cansaço. O encosto da cara quase parece um afecto, mas não me engano. Seguem-se as perguntas, os pedidos e os decibéis a levantarem-se do chão. As mesmas respirações pautadas pelo mesmo conflito. E mais nada.


A desilusão, essa não me larga. Enfio as luvas para a agarrar, o cheiro a plástico a enjoar, respiro fundo e deito a mão. Só água. Nada sólido, nada passível de queimar e tornar pó. Nem um simples botão de reiniciar para acreditar de novo. Para perceber que foi falha do sistema, que o coração ainda me têm em fotos de miúdo. Mas hoje ponho a mala ao ombro, viro costas e deixo de ouvir. Hoje percebo que não há caminho de regresso e que o olhar perdeu a cor. Ali, já não sou o que fui, sou um comboio estonteado sem paragens nem atrasos.


Faço de sentinela a noite inteira e nem a vejo pousar. Vou deixá-la estar. Não a consigo agarrar.






Miguel Branco

31/08/11

Regresso

A curva à direita, acentuada, à saída da auto-estrada. E o deambular do vento entre os campos de milho. Os de sempre, uns mais velhos, mais secos. Outros tão verdes, tão vivos, extensos até sempre. Um ténue aceno, como um aperto de mão. Seja bem aparecido. E o cheiro a ti, à terra, o cheiro das vacas que se sentia a milhas de distância. Como sabe bem voltar ao teu local. Aquele em que me esfolei e ri sem parar. A igreja, bonita, azul, como sempre. As vizinhas, e adivinhem, estou enorme, estou um homem. O chão da praça com desenhos, só vale pisar as partes pretas. E a capela que o nevoeiro tentou esconder naquela noite horrível. Nunca tive tanto frio. A torreira, moderna, com gente nova, caracóis biológicos e um sol diferente, mais alegre. A regueifa de manhã com amoras roubadas e iogurte natural. As senhoras de bicicleta a irem para a missa, que o domingo é sagrado. A casa e o poço. Ainda funciona, ainda faz aquele ruído que mais parece uma porta a fechar. E tu. Em todo o lado, da sala à cozinha. O teu andar encolhido em forma de dor, com um leque na mão. Que saudades do pão quente e dos pêssegos carecas. Mudei-te a água, as flores e um até já. Tremi. Tu ouviste, eu sei que tu ouviste. Descansa, eu volto. Agora posso voltar.




Miguel Branco

12/08/11

Os meus amigos

Os meus amigos são tão estranhos. Há um que demora uma hora a responder a uma mensagem de telemóvel. Um que nunca atende. Um que me obriga a ouvir músicas ridículas enquanto espero que atenda. Um que tem um bigode de estimação. Uma que não diz os R’s. Uma que pinta as unhas enquanto me chama nomes. Uma que, cada vez que me vê, diz que eu estou mais gordo. Um que é perito em matar pessoas na playstation. Um que enche o peito quando passa uma menina de saia. Um que me crava cigarros a toda a hora. Mentira, dois. Mentira, três. Uma que fala sem acentos. Um que tenta ser mais parvo do que eu. Uma que é muito nariz empinado. Mentira, cinco. Um que é um playboy a tempo inteiro. Uma que se desgraça cada vez que vamos sair. Uma que usa copa D, quando nem enche uma A. Uma que tem a mania que é vintage. Um que acha que sabe dançar. Uns/umas que amuam e ficam calados meia hora. Um que demora três horas a sair de casa e consegue esquecer-se das chaves. Uma que come, dorme, come, dorme. Uma que é mais aluada que eu. Um que ressona e assobia ao mesmo tempo. Um que pergunta pelo ouro quando está a dormir. Uma que não gosta de favas. Uma que todos lhe devem dinheiro. Uma que me liga quando está bêbada a dizer que tem saudades minhas (quando me viu há dois dias). Uma que fuma sem travar. Uma que não gosta de cerveja. Uma que tem buço e óculos fundo de garrafa. Um que pede desculpa por cada frase que diz. Um que em cada cinco palavras diz seis asneiras. Um que pede um café cheio e diz sempre que está queimado. Um que quase tem um ataque cardíaco a cada jogo do glorioso. Uma que odeia os Queen.


Os meus amigos são esquisitos, mas são os melhores.




Miguel Branco


19/06/11

Encosta

Faz cinco anos que te ouvi subir a encosta. E até hoje nada. Eras tu, e o teu andar meio trapalhão com as sandálias na mão. Os óculos escuros com o rebordo castanho e chapéu à mexicana. Eras tu, tenho a certeza. De camisa transparente e de calções pretos, como eu tanto gosto em dias frescos de verão.


O declive é acentuado, o da encosta claro, e parecias tão perto. Não espreitei, dizem que dá azar, e só podias ser tu, para quê confirmar? Estendi a manta e pousei a cabeça para ouvir os teus passos a galgar a areia. O teu fôlego bem te denunciava e pareceu-me ouvir o teu assobio, em forma de onda do mar.


Esperei tranquilamente. Sempre gostaste de demorar. E eu sempre gostei que demorasses, que fosses vivendo ao teu ritmo e que marcasses o meu.


Tanto esperei que adormeci. Mas eras tu. Só não era eu.




Miguel Branco

22/05/11

22 de Maio

Hoje é um dia bonito. Unem-se as festas, unem-se os antigos e os recentes, unem-se os amores. E como nós gostamos destes convívios, quase conferências de casino onde se discutem ideias, onde se ri da desgraça e onde, acima de tudo, se deixa o tempo passar, sem lhe dar confiança.


Foi aqui que cresci, num berço banhado a cultura, respeito mútuo e sensibilidade. E eis que aqui estou, e eis que aqui estamos mais um ano para saborear a amizade na companhia de uma fatia de pão com queijo da serra e presunto. As pessoas são as mesmas, mais ou menos rugas, 5 kg a mais, 5 kg a menos, ninguém muda.


Hoje é mais um dia bonito, em que te escrevo devaneios de um jovem ausente. As cartas sucedem-se, fica o gesto no coração, as palavras no ouvido e o desejo de tréguas numa lágrima de afecto. Que orgulho tenho daquilo que me tornou mais homem, quando devia ser mais miúdo, daquilo que me fez parar na cama e viajar entre pensamentos, em vez de ligar a televisão à espera do sinal do sono.


Hoje é um dia bonito, que ninguém duvide. E hoje, queria-te dizer, que ainda aqui estou de sorriso na boca e olhos no ecrã, que ainda preciso de escrever, que ainda tremo quando te sinto mal, que ainda sou eu, o miúdo que admiravas e de quem te orgulhavas. Quero acreditar que nos vamos entender, que um dia vais virar a página para leres o que está escrito nas costas, que um dia vais assimilar com relativa facilidade a emergência de um menino que já deixou de o ser. Sei que um dia o orgulho vai voltar, como um pena branca que poisa numa secretária do início do século e se deixa ficar até alguém notar.




Hoje é o teu dia Mãe, e como ele é bonito ao final da tarde.



Parabéns Mãe,


Do teu eterno filho Miguel.



22/05/2011


Miguel Branco